Well Calcagno

Beco da Arcádia

 

É foda ter que encarar a vida

Essa torrente louca de sensações,

Acho que essa palavra “foda”

Não é boa para a poesia,

Que tem de se estéril e limpa

Como a onda suave que beija

A praia no fim da tarde,

Mesmo que neste exato momento

Um projétil mais quente que

O coração inocente

Que encontrou pelo caminho,

Faça resplandecer ao sol

Um mando vermelho de sangue.

Tem-se que medir as palavras

Para não causar comoções

Aos olhos sensíveis aos

Substantivos inapropriados,

E submetê-los aos bons costumes.

O barquinho vai deslizando

No imenso mar azul,

Enquanto a fome grita na calçada suja,

Enquanto a mão ossuda tenta alcançar

As migalhas duma lata de lixo

Antes de se elevarem aos céus segurando

Com força o pão sujo que encontraram,

Sob o olhar enfurecido duma barata

Que se banqueteava com ele.

O povo toma no cu,

Mas o problema são as palavras

Erradas numa poesia malfadada,

Porém mais nobre que as gravatas

Que os gaviões usam enquanto

Garantem os interesses de quem tem grana

Roubando os sonhos e a esperança

Enquanto higienizam costumes,

Estrumes em prato de porcelana.