exclamation girl
IDADE SUSPENSA
O teto não abriga — pesa e esmaga,
fardo de chumbo em ombros de vidro.
O afeto que cria é o que apaga,
laço de seda em carrasco convertido.
Sob olhos severos, o eu se restringe,
a alma é um crime que a lei infringe.
Cresceu-se no tempo, mas em contenção,
um mundo sitiado pela negação.
A infância foi zelo, foi gesso e censura,
corpo moldado na exata clausura.
Cuidar de outro sangue, em modo de anulação,
fez o próprio pulsar perder a função.
Não se sabe o amor, esse sopro de vento,
ali o destino é sustentar o chão.
Um sacrifício mudo, um lamento lento,
trocar a existência por mera obrigação.
A tristeza habita o zelo, o excesso,
morou no cuidado que nega o acesso.
Não há portas, segredos ou chão:
a vida definha na palma de outra mão.
Aos vinte e poucos, pede-se licença,
como quem pede perdão por existir.
Sem rosto, sem traço, sob rédeas tensas,
as vontades aprendem a apenas desistir.
Ao longe, os vivos plantam suas raízes,
compram futuros, inventam caminhos.
Ali, a alma colhe cicatrizes,
morta de sede em jardins de espinhos.
Jovem demais para as correntes,
velha demais para ter salvação.
Não é amor o que sufoca lentamente,
é uma morte educada com nome de proteção.
É o zelo que prende, que nega e cega,
onde o corpo obedece e o nada lateja.
Enquanto o mundo as catedrais ergue,
o ser se esquece que a dor o persegue.
Vai ficando sem sonho, sem rumo, sem norte,
um vulto esperando o alvará de sua sorte.
Sem vida, sem alma, sem rumo e sem cais,
esquece-se o gesto de respirar mais.
A finitude não vem num golpe piedoso,
não traz o descanso, nem traz claridade.
O que resta é o definhar absoluto,
na idade suspensa de um eterno luto.