Amanda S. Moraes

O que nos mantém aqui

 

Não é a glória que nos sustenta.  

Nem o amor perfeito,  

nem a resposta certa,  

nem a conta bancária cheia de paz.  

 

É o cheiro do pão esquecido no forno,  

queimando,  

mas ainda quente.  

 

É o abraço que não resolve nada,  

mas faz o peito parar de gritar por um minuto.  

 

É a mãe que canta errado  

enquanto lava a louça,  

porque a canção era da avó dela,  

e a avó dela também errava.  

 

É o velho que rega uma planta morta  

há três semanas, 

só por teimosia,  

ou talvez por fé disfarçada de hábito.  

 

É a adolescente que escreve poemas  

em cadernos com capa de plástico  

e os esconde debaixo do colchão,  

como se palavras fossem contrabando sagrado.  

 

É o homem que chora no banheiro  

com a torneira aberta,  

para que ninguém ouça  

o som de um mundo desmoronando  

dentro de um peito só.  

 

É a risada inesperada  

no meio de um enterro.  

É o silêncio que vem depois -

mais honesto que qualquer discurso.  

 

Somos feitos de gestos pequenos  

que ninguém filmou:  

de mãos que seguram o copo trêmulo,  

de pés que voltam pra casa mesmo cansados,  

de olhos que ainda se levantam  

para ver o nascer do sol -  

não por esperança,  

mas por teimosia ancestral.  

 

A vida humana não é épica.  

É repetição com coragem.  

É levantar,  

cair,  

levantar de novo,  

não porque acredita no fim feliz,  

mas porque alguma parte dela ainda gosta do caminho.  

 

E às vezes,  

só às vezes,  

é sentar na areia,  

olhar o mar,  

e sussurrar:  

“Tá difícil… mas tô aqui.”  

 

E isso,

só isso,  

já é milagre.  

 

Porque o universo é vasto,  

e frio,  

e indiferente.  

 

Mas nós?  

Nós fazemos sopa para quem está triste.  

Nós salvamos mensagens antigas.  

Nós guardamos bilhetes de ônibus  

de dias em que tudo parecia possível.  

 

Nós amamos mal,  

mas amamos.  

Erramos muito,  

mas voltamos.  

Choramos em silêncio,  

mas não desligamos a luz.  

 

E é por isso que continuamos:  

não por grandiosidade,  

mas por ternura teimosa.  

 

Porque mesmo feridos,  

ainda sabemos  

oferecer água  

a quem passa sede.  

 

E nisso,

só nisso,

está toda a santidade  

que o mundo precisa.