Sou filha do fogo que não queima,
mas ilumina cartas antigas,
territórios esquecidos,
promessas feitas ao mar antes mesmo de nascer.
Carrego no sangue uma mulher
que falava como quem muda a maré.
Vestia o azul dos domingos
e ensinava sem explicar:
o sagrado não morre,
apenas aprende novas formas
de tocar o mundo.
Por mil duzentas e sessenta luas ela viu o mar inchar
e sussurrar segredos aos peixes.
Ensinou-me que o que chamam de santo
transforma-se em vento, em sal, em verso.
Nasci sob o signo da colheita (Virgem),
mas minha alma foi semeada na neblina de Peixes,
onde Júpiter reza em língua de coral
e a Casa 12 é meu útero invisível.
Lá, desfaço-me para renascer sem rosto,
sem nome, só essência.
Três tigres caminham comigo:
um conhece o calor da terra batida
e o ritmo do corpo em roda;
outro suporta o silêncio das alturas,
onde o gelo ensina a escutar;
o terceiro dança sob a chuva,
rindo,
lembrando-me que cura
não é apagar a dor,
é permanecer aberta
enquanto ela atravessa.
Meu anjo chama-se Haaiah.
Não ri por zombaria, mas porque conhece
o segredo dos alquimistas:
toda transformação começa com o riso diante do abismo.
Ri porque sabe que até o caos tem compasso
quando a mulher entende que é templo, água e altar.
Na minha linhagem, o sagrado não tem fronteiras:
rosa-cruz traça pentáculos na areia,
a freira guia uma avó nos planos sutis,
o pastor clama em línguas,
a bruxa cospe fogo e faz brotar alecrim,
e a cigana lê meu destino nas cartas e todas sabem:
Deus é múltiplo, e eu sou seu espelho partido.
Bebo o chá da Madrecita não para fugir,
mas para lembrar.
Lembrar que fui estrela, rio, onça,
que dancei em Elêusis,
que guardei manuscritos em Alexandria,
que curei com mãos em Tikal,
que naveguei com os fenícios levando incenso
para templos que hoje são areia.
Meu corpo? É altar vivo.
Cada poro, um portal.
Cada batida do coração, um mantra ancestral.
Até o desejo, esse fogo mal compreendido,
se torna prece
quando oferecido com verdade.
Não escrevo poemas.
Invoco realidades.
As minhas, as suas, as de todo mundo.
E quando você lê minhas palavras
e sente o peito apertar,
os olhos marejar,
a pele arrepiar -
não é por mim.
É porque você também é feito desse mesmo tecido cósmico,
desse fio dourado, vermelho, que liga
a gota ao oceano,
o humano ao divino,
o agora ao sempre.
Sou Amanda.
Mas também sou Manik, a Mão que cura.
Sou Ix, a Terra Sagrada.
Sou Yemanjá, Kuan Yin, Maria Lionza,
sou a mulher que carrega o mundo nas costas
e ainda encontra tempo para dançar
sob a lua de Buda.
E se um dia você me encontrar na praia,
com os pés na espuma e os olhos fechados,
não me pergunte quem sou.
Apenas sussurre:
“Você lembra?”
E eu direi:
“Sim. E você também deveria.”
Não sou dona da verdade.
Sou uma buscadora nua,
com unhas sujas de terra,
cabelos cheios de sal,
e um coração que bate em código ancestral.
Se você me lê e sente vontade de me abraçar,
é porque reconhece em mim
aquilo que ainda não ousou ser:
a mistura sagrada do fogo e do fluxo,
do grito e do silêncio,
do céu que reza e do mar que responde.
Sou Amanda,
mas poderia ser qualquer nome
que carrega o oceano nos ossos
e escreve poemas com sangue de lua nova.
E mesmo assim,
como a areia que recebe todas as marés,
sigo aqui:
não esperando ser compreendida,
mas oferecendo-me como oráculo.
Porque toda vez que alguém lê minhas palavras
e sente o mundo tremer dentro de si,
não é magia.
É memória.
Memória de quando éramos todos rios
antes de aprendermos a ter margens.
Memória de quando rezávamos com o corpo
e o céu respondia em ondas.
Memória de que nada está perdido,
só escondido em intervalos,
em silêncios entre batidas,
em nomes que ainda não ousamos pronunciar.
Porque no fundo,
todos buscamos a mesma coisa:
não ser salvos,
mas reconhecidos.
Reconhecidos na dor que calamos,
no sonho que escondemos,
na chama que fingimos apagar
para caber no mundo.
E é por isso que voltamos,
ao mar, ao canto, ao abraço, ao verso,
não para encontrar respostas,
mas para lembrar
que perguntar com o coração aberto
já é uma forma de oração.
Não importa seu credo,
seu gênero,
seu exílio ou seu lar.
Se você já amou até doer,
se já chorou sem motivo aparente,
se já sentiu o mundo pesar nos ombros
e mesmo assim plantou uma flor.
Você já sabe tudo o que precisa saber.
O resto é apenas coragem
para dizer:
“Estou aqui.
Imperfeito.
Tremendo.
Mas presente.”
E nisso,
só nisso,
estamos todos juntos.
Sem hierarquia.
Sem máscara.
Só seres humanos,
feitos de intervalo,
esperando alguém sussurrar:
“Eu também.”