Sezar Kosta

RECEITA DE NÓS DOIS

Abro o caderno antigo da memória

como quem abre a cozinha pela manhã.

Ali, a felicidade não tinha luxo,

pedia apenas ingredientes do dia a dia.

 

Uma xícara de risos mornos,

colhidos cedo, ainda com cheiro de pão.

Duas colheres de paciência,

brancas como pano estendido ao sol,

símbolo do cuidado que nunca faltou.

 

Um fio de esperança,

tão fino quanto o leite derramado com zelo,

mas suficiente para unir tudo

sem deixar o fundo queimar.

 

Sal a gosto de verdade —

porque o amor, quando é puro,

não precisa exagero.

Basta a medida certa de cumplicidade,

aquela que se aprende no silêncio

e se confirma no olhar.

 

Misturávamos tudo devagar,

com mãos limpas de medo,

inocentes como quem acredita

que a vida pode ser simples

e, ainda assim, profunda.

 

Levava ao fogo baixo dos dias comuns:

um café compartilhado,

uma tarde qualquer rindo à toa,

o abraço que curava sem perguntar.

 

E assim, em pequenas doses somadas,

a felicidade ganhava corpo,

crescia leve, sem pressa,

como bolo caseiro que perfuma a casa

e fica na lembrança.

 

Hoje provo esse passado com ternura

e sei:

foi o amor verdadeiro que sustentou a receita,

foi a esperança que manteve o forno aceso.

Nada complicado.

Apenas afeto, simplicidade

e o otimismo de quem escolheu

ser feliz junto.