Noétrico

Agente Imerso

Ele anda sem pisar,
respira sem ar,
repete gestos que não escolheu
como se fossem naturais.

O mundo passa por ele
em forma de ruído.
Tudo soa urgente,
nada é lido.

Acredita que reage,
mas apenas responde.
Confunde impulso com vontade,
eco com voz.

O campo o atravessa
sem resistência.
Palavras o moldam,
medos o organizam,
expectativas alheias
lhe dão contorno.

Não vê o jogo.
Move as peças
como quem acredita no acaso
e chama de destino
o que nunca questionou.

Carrega certezas emprestadas,
opiniões prontas,
afetos condicionados.
Defende o que não entende,
teme o que não nomeia.

A realidade não se abre:
o envolve.
Ele não opera,
é operado.

E ainda assim,
há um instante raro —
uma falha no ruído,
um silêncio mínimo
onde algo não encaixa.

Nesse intervalo
o Agente Imerso hesita.
E a hesitação,
mesmo breve,
já não é passiva.

Porque onde surge a dúvida,
o campo treme.
E onde o campo treme,
existe, pela primeira vez,
a possibilidade de escolha.