Amanda Suita

A travessia

Ela foi ensinada a seguir pela estrada.

Linha clara, batida,

limpa de desvios,

onde todos passam

e ninguém pergunta por quê.

Disseram:

não saia do caminho.

Não escute o que chama da mata.

Não confie no que cresce fora da luz.

Mas a floresta

sempre soube o nome dela.

Entre troncos tortos

e sombras que respiram,

há vozes que não ameaçam,

apenas revelam.

Cada passo fora da trilha

não é erro,

é iniciação.

O perigo não mora na escuridão,

mora no que foi proibido de ser visto.

O medo não é o lobo,

é o silêncio que ensinaram a obedecer.

Ela caminha

com o coração exposto,

porque só assim

se aprende a diferença

entre perda e passagem.

Há coisas que só se encontram

quando se aceita o risco:

o espelho quebrado,

o desejo sem nome,

a dor que não quer cura,

quer escuta.

A floresta não pune.

Ela devolve.

Cada sombra tocada

retira um véu.

Cada encontro estranho

revela um pedaço esquecido de si.

No fim,

não há chegada triunfal,

nem moral da história.

Há compreensão.

A estrada era segura,

mas nunca foi viva.

E crescer

não é vencer o medo, 

é aprender a caminhar com ele

sem pedir permissão.

Porque toda menina

que ousa sair do caminho

descobre, cedo ou tarde,

que o verdadeiro lar

não estava no destino,

mas na travessia.