Versos Discretos

O Verbo da Carne

Não é apenas carne o que em rubor se oferta, 
É um abismo úmido, de linfa e de veludo, 
Onde a língua, em busca, astuta e desperta, 
Subverte o silêncio e profana o que é mudo.

No embate das bocas, o hálito é brasa, 
Um vício de mel que no palato se estende; 
Teu beijo é o incêndio que a alma arrasa, 
E o ventre, em resposta, em febre se acende.

Mas quando o prazer te percorre a espinha, 
E a boca se entrega ao espasmo profundo, 
Brota o gemido — nota que me faz vinha 
O som mais arcaico e mais belo do mundo.

É um canto gutural, de entrega e de açoite, 
Que escapa entre dentes, em sôfrego arfar, 
Rasgando o veludo sombrio da noite, 
No rito bendito de te ver transbordar.

Bebo esse som como quem bebe a vida, 
Na concha dos lábios, em plena ebulição, 
Tua boca é a entrada e a única saída, 
Para o labirinto da minha perdição.