CORASSIS

A vida continua

A vida continua
A sepultura coleciona folhas secas
A dor perpétua
Faz vigília imediata
Nos olhos da criança
Meu gato me acorda às 5:23
Não se importando com meu sono
Por anos desgastado...
Por anos desejaram a insônia insana
Já o gato
Com suas necessidades essenciais
A desenvolver o seu roteiro
Particularmente, diariamente
E assim a vida continua
Em algum lugar, próximo ou distante, alguém faz amor
Em pecado ou com a provação
Divina
A vida continua indolor
Entre as cobertas não tão macias da  cartilha 
Que não explica coerentemente
Até quando dura a agonia
Ou o coito proibido 
A vida continua com as mesmas 
Imagens nefastas
Que exemplificamos como sagradas
Mesmo quando a vida é vencida
Pela glória do nada, anestesia do sono
Pelos palmos delicados
De qualquer endereço
Onde
Ficaremos expostos ou depositados
Porque a vida continua
Talvez será interrompida
E reverenciada num paraíso
Talvez o que menos importa
Serão as lembranças 
Minha alta ajuda não aparece
Mas a vida continua
Sem atitude
Na cegueira imperfeita
De quem só não enxerga mais que o Criador
Na luz da ilusão
A mente não carece mais
De nada, frio ou quente
A vida continua
Com vinhos baratos
Que funcionam tão bem
Como a carestia dos vinhos
Envelhecidos em barris
As árvores eram centenárias
As lembranças também
Mesmo assim, a vida continua
E não muda os fatos
Nem o gosto do vinho é imperfeito
Interfere no paladar de quem
Não desfruta a esperança ou a fé
A vida continua e, mesmo assim,
O amor já acabou com cidades
Eu peço a Deus a liquidação
Do que me apavora
Mas a solidão não é agente principal na cama fria
Já os cobertores acariciam sonos
Mas a vida continua com sonhos
E falsos desejos
A vida continua, mas precisa de tantas vírgulas?
Todo tempo ruim passará
A vida continua...