Rasguei meu nome do livro dos vivos
com unhas sujas de madrugada.
Nenhum anjo veio impedir.
Deus desviou o rosto
cansado como eu.
Acendo velas feitas de ossos cansados,
cada chama um erro que não peço perdão.
O chão me reconhece,
a terra me chama de irmão,
e o silêncio se ajoelha primeiro.
Meu corpo não é templo
é ruína.
Colunas rachadas,
vitrais quebrados pela esperança,
um altar onde o coração bate
como um animal preso pedindo o fim.
Rezo não para ser salvo,
mas para ser esquecido.
Que a Morte me toque
não como carrasca,
mas como sacerdotisa antiga,
lavando meus pensamentos
na água escura onde o tempo afoga os nomes.
Não quero céu.
O céu exige pureza,
e eu só tenho cansaço.
Não quero inferno
já vivi o suficiente dentro de mim.
Quero o intervalo.
O espaço entre um pensamento e outro
onde a dor não fala,
onde o corpo não exige sentido,
onde existir não é um trabalho forçado.
Se isso for pecado,
que eu peque até o osso.
Se isso for blasfêmia,
que Deus aprenda
o peso de carregar um mundo
sem nunca poder deitar.
A Morte observa em silêncio ritual,
não julga, não consola.
Ela entende.
Ela sempre entende.
E eu me ofereço não como sacrifício,
mas como sobra,
como resto humano
que já queimou tudo o que tinha
para continuar.
Entre o último medo e o próximo suspiro,
fico aqui
ajoelhado no escuro,
não pedindo o fim,
mas exigindo descanso
num universo que só respeita
quem sangra em pé.