Olhei a página em branco
Abri o espírito aos ventos
Que sopravam suas canções
Como uma multidão louca
Cantando em uníssono
Em pleno carnaval
Pelas ruas da cidade velha
Que se desfaz sob a urina
Dos pássaros e dos bêbados.
O espírito atordoado
Estremeceu feito terremoto
Ou um edifício implodido
pouco antes de vir ao chão
Caindo pesadamente
Sobre si mesmo
Levando consigo lembranças
De tudo que viveu em seu interior,
Escondidas entre a poeira dos escombros.
Tremeu tanto que
Que rachou as paredes do corpo
Deixando escapar pelas frestas
Uma luz esverdeada, intensa
Tal qual estrela que morre ao longe,
E se mistura ao brilho falso das lantejoulas.
Pensou em gritar um manifesto niilista,
Sobre a violência abissal
Que esses tempos de guerra aflora,
Essa batalha louca pelas cabeças
Que se empilham umas sobre as outras
Nos ônibus e trens, que cortam a face
Dessa cidade.
Pensou em gritar contra a barbárie
Escondida no dia a dia,
Nas relações mais simples,
Mas não o fez,
Quer voar para longe feito a mosca
Que levanta voo do monte de fezes
Que a limpeza urbana negligenciou
Largado ao esquecimento nesse canto escuro,
Enquanto todos cantam as marchinhas alegremente
Como se realmente existisse a felicidade.
Talvez vista a fantasia monocromática
de um palhaço triste,
Ou o colorido espalhafatoso
de um bobo alegre
E dance nesse baile de almas perdidas.