Amor é aquele vício
que prometo largar na segunda-feira —
anoto na agenda, sublinho, faço cara séria.
Mas chega domingo
e eu já estou sorrindo para a parede,
como se ela soubesse o seu nome
e guardasse seus gestos no reboco.
Pergunto-me, com a seriedade
de quem finge controle:
isso é liberdade
ou apenas um desvio bem decorado?
O coração responde com ironia:
“Relaxa, ninguém se encontra
seguindo linha reta.”
Amar me deixa lúcida e confusa
na mesma medida.
É um hospício curioso,
com janelas abertas,
onde a loucura usa perfume leve
e chama a si mesma de esperança.
E o mais estranho — confesso rindo —
é que ninguém quer fugir.
Às vezes penso que a vida
é esse paradoxo mal resolvido:
queremos sentido,
mas escolhemos o abismo
quando ele sorri de volta.
E eu, que tanto analiso,
aceito:
há dúvidas que são casa,
há perguntas que aquecem,
e há amores que não se curam
porque, no fundo,
ninguém quer receber alta
daquilo que finalmente
nos faz sentir vivos.