Luana Santahelena

Manual Provisório para Amar sem Alta Médica

Amor é aquele vício

que prometo largar na segunda-feira —

anoto na agenda, sublinho, faço cara séria.

Mas chega domingo

e eu já estou sorrindo para a parede,

como se ela soubesse o seu nome

e guardasse seus gestos no reboco.

 

Pergunto-me, com a seriedade

de quem finge controle:

isso é liberdade

ou apenas um desvio bem decorado?

O coração responde com ironia:

“Relaxa, ninguém se encontra

seguindo linha reta.”

 

Amar me deixa lúcida e confusa

na mesma medida.

É um hospício curioso,

com janelas abertas,

onde a loucura usa perfume leve

e chama a si mesma de esperança.

E o mais estranho — confesso rindo —

é que ninguém quer fugir.

 

Às vezes penso que a vida

é esse paradoxo mal resolvido:

queremos sentido,

mas escolhemos o abismo

quando ele sorri de volta.

E eu, que tanto analiso,

aceito:

há dúvidas que são casa,

há perguntas que aquecem,

e há amores que não se curam

porque, no fundo,

ninguém quer receber alta

daquilo que finalmente

nos faz sentir vivos.