NÃO, NÃO FOI POR MINHA CULPA
(Tentativa de aproximação ao Surrealismo)
não, não foi por minha culpa que me enterraste
naquele jardim
nunca te vi com
uma pá na mão a atirares-me areia
para os olhos e nunca uma pá
acertou na minha cabeça oca
não, não foi por minha culpa que me enterraste
naquele jardim
porque quando passo na ponte sob
o oceano pacifico
escorrego sempre na mesma
casca de ananás
que alguém plantou no alcatrão verde
daquele campo de andebol e
lembro-me sempre de ti
com ódio porque
enquanto penso nisto
olho para a sepultura ao lado da minha e
tenho vontade de mudar para lá
só que
vejo um quadro de Picasso a sangrar
e perco a vontade
apesar dos pingos de sangue me dilacerarem os
ossos e eu ter de gritar
bem alto GUERNICA nem sei a
propósito de quê
talvez porque o sangue que não é sangue
me provoca alucinações
ainda penso em álcool
ou outra droga mais leve
mas só me vem à caveira oca que
não, não foi por minha culpa que me enterraste
naquele jardim
e se calhar até foi
porque eu bebia litros de água e
isso perturbava a nossa relação apesar de
te pedir desculpa de cada vez que uma
gota de água me escorria pelo corpo
e eu perdia o pé
entrando em pânico
porque como te
deves recordar nunca aprendi a nadar!
mas acredita
apesar de no meu crânio já
não habitar um cérebro
continuo a pensar que
não, não foi por minha culpa que me enterraste
naquele jardim
e peço perdão a mim próprio
numa tentativa desesperada de qualquer coisa
mas isso não me devolve as carnes
a este monte de ossos!
se calhar foi mesmo por
minha culpa que me enterraste
naquele jardim