Arthur Santos

NÃO, NÃO FOI POR MINHA CULPA

NÃO, NÃO FOI POR MINHA CULPA
(Tentativa de aproximação ao Surrealismo)

 

não, não foi por minha culpa que me enterraste

naquele jardim

 

nunca te vi com

uma pá na mão a atirares-me areia

para os olhos e nunca uma pá

acertou na minha cabeça oca

não, não foi por minha culpa que me enterraste

naquele jardim

 

porque quando passo na ponte sob

o oceano pacifico

escorrego sempre na mesma

casca de ananás

que alguém plantou no alcatrão verde

daquele campo de andebol e

lembro-me sempre de ti

com ódio porque

enquanto penso nisto

olho para a sepultura ao lado da minha e

tenho vontade de mudar para lá

só que

vejo um quadro de Picasso a sangrar

e perco a vontade

apesar dos pingos de sangue me dilacerarem os

ossos e eu ter de gritar

bem alto GUERNICA nem sei a

propósito de quê

talvez porque o sangue que não é sangue

me provoca alucinações

ainda penso em álcool

ou outra droga mais leve

mas só me vem à caveira oca que

 

não, não foi por minha culpa que me enterraste

naquele jardim

 

e se calhar até foi

porque eu bebia litros de água e

isso perturbava a nossa relação apesar de

te pedir desculpa de cada vez que uma

gota de água me escorria pelo corpo

e eu perdia o pé

entrando em pânico

porque como te

deves recordar nunca aprendi a nadar!

mas acredita

apesar de no meu crânio já

não habitar um cérebro

continuo a pensar que

 

não, não foi por minha culpa que me enterraste

naquele jardim

 

e peço perdão a mim próprio

numa tentativa desesperada de qualquer coisa

mas isso não me devolve as carnes

a este monte de ossos!

 

se calhar foi mesmo por

minha culpa que me enterraste

naquele jardim