Antes do som, há o corpo, o lenho santo,
Tal qual o peito onde o amor se esconde; A caixa de ressonância, o doce espanto,
Onde o silêncio espera e o eco responde. Eis que o Destino, o Luthier divino,
Tenciona as fibras de um viver humano,
E traça nas seis linhas o destino Do amor que nasce doce e fere insano.
Ressoa o Mi grave, o bordão profundo, Como o primeiro olhar que o chão abala;
É o tremor tectônico do mundo
Quando a paixão, sem voz, ao sangue fala. Vibra no peito, pesada e escura,
A atração fatal, a força da terra;
Não é romance ainda, é só tortura,
O prenúncio de paz e o som de guerra. É o coração batendo em descompasso,
Grosso, viril, temendo o próprio passo.
Sobe o tom para o Lá, a corda aberta,
Onde as almas se tocam e se entendem; A harmonia se faz, a mente desperta,
E os mistérios de dois, enfim, se aprendem. É o diálogo, a troca, o som constante,
A base firme onde se ergue a casa; O amor deixa de ser um peso errante
E ganha a leveza que o sustenta e vaza. Vibra o entendimento, o acordo mudo,
Saber que o outro agora é o seu estudo.
Eis o Ré, que caminha e que procura,
A corda que transita entre os mundos;
Sai da base do ser, da terra dura,
Para buscar os toques mais profundos. É a conquista, o jogo, a aproximação,
O desejo que sobe e pede urgência;
A melodia ganha direção,
Perdendo o medo, ganhando insolência. É a mão que tateia, a pele que chama,
O combustível que alimenta a chama.
Explode o Sol, a luz, o centro quente! A corda nua, exposta, sem o aço;
É o beijo, o clímax, o amor presente,
O brilho do ouro e o fim do cansaço. Aqui não há mistério, tudo é dia,
O som é morno, envolvente e terno;
A paixão vive a sua monarquia,
Jurando que este instante será eterno. É o verão do amor, a plenitude,
Onde a tristeza perde a magnitude.
Mas afina-se o fio, o Si desperta, Cortante, agudo, tenso e perigoso;
A paixão, quando é muito descoberta,
Traz o ciúme, o medo e o receio oneroso. É a corda que chora quando se bendiz,
A fragilidade de quem muito ama; O medo de perder o que se quis,
A nota que, gritando, o peito inflama. É a vulnerabilidade cristalina,
A dor que fere e, ao mesmo tempo, ensina.
Por fim, a Mizinha, fio de cabelo,
Tão fina que parece quase nada; É o amor sublimado, o puro apelo,
Ou a saudade após a retirada. Seu som não pesa, voa para o céu,
É o suspiro final, a despedida,
Ou o véu de noiva, ou o negro véu,
A nota mais alta de toda a vida. Se arrebenta, é o fim, o silêncio frio; Se dura, é o amor que venceu o vazio.
Assim, nas seis etapas se dedilha A história de quem ama e se consome;
Do grave que no peito se afilha Ao agudo que grita o próprio nome. Do peso da terra ao ar que levita,
O amor é violão que a vida toca; Uma canção antiga e infinita, Que a cada novo amante se provoca.