Eder Maurilio Soares

Epopeia das Cordas

Antes do som, há o corpo, o lenho santo, 

Tal qual o peito onde o amor se esconde; A caixa de ressonância, o doce espanto, 

Onde o silêncio espera e o eco responde. Eis que o Destino, o Luthier divino, 

Tenciona as fibras de um viver humano, 

E traça nas seis linhas o destino Do amor que nasce doce e fere insano.

Ressoa o Mi grave, o bordão profundo, Como o primeiro olhar que o chão abala; 

É o tremor tectônico do mundo 

Quando a paixão, sem voz, ao sangue fala. Vibra no peito, pesada e escura, 

A atração fatal, a força da terra; 

Não é romance ainda, é só tortura, 

O prenúncio de paz e o som de guerra. É o coração batendo em descompasso,

 Grosso, viril, temendo o próprio passo.

Sobe o tom para o Lá, a corda aberta,

 Onde as almas se tocam e se entendem; A harmonia se faz, a mente desperta,

 E os mistérios de dois, enfim, se aprendem. É o diálogo, a troca, o som constante, 

A base firme onde se ergue a casa; O amor deixa de ser um peso errante 

E ganha a leveza que o sustenta e vaza. Vibra o entendimento, o acordo mudo,

 Saber que o outro agora é o seu estudo.

Eis o Ré, que caminha e que procura, 

A corda que transita entre os mundos;

 Sai da base do ser, da terra dura,

 Para buscar os toques mais profundos. É a conquista, o jogo, a aproximação, 

O desejo que sobe e pede urgência; 

A melodia ganha direção, 

Perdendo o medo, ganhando insolência. É a mão que tateia, a pele que chama, 

O combustível que alimenta a chama.

Explode o Sol, a luz, o centro quente! A corda nua, exposta, sem o aço;

 É o beijo, o clímax, o amor presente, 

O brilho do ouro e o fim do cansaço. Aqui não há mistério, tudo é dia, 

O som é morno, envolvente e terno;

 A paixão vive a sua monarquia, 

Jurando que este instante será eterno. É o verão do amor, a plenitude, 

Onde a tristeza perde a magnitude.

Mas afina-se o fio, o Si desperta, Cortante, agudo, tenso e perigoso; 

A paixão, quando é muito descoberta, 

Traz o ciúme, o medo e o receio oneroso. É a corda que chora quando se bendiz, 

A fragilidade de quem muito ama; O medo de perder o que se quis, 

A nota que, gritando, o peito inflama. É a vulnerabilidade cristalina, 

A dor que fere e, ao mesmo tempo, ensina.

Por fim, a Mizinha, fio de cabelo, 

Tão fina que parece quase nada; É o amor sublimado, o puro apelo, 

Ou a saudade após a retirada. Seu som não pesa, voa para o céu, 

É o suspiro final, a despedida, 

Ou o véu de noiva, ou o negro véu, 

A nota mais alta de toda a vida. Se arrebenta, é o fim, o silêncio frio; Se dura, é o amor que venceu o vazio.

Assim, nas seis etapas se dedilha A história de quem ama e se consome; 

Do grave que no peito se afilha Ao agudo que grita o próprio nome. Do peso da terra ao ar que levita, 

O amor é violão que a vida toca; Uma canção antiga e infinita, Que a cada novo amante se provoca.