exclamation girl

OCUPAÇÃO DO VAZIO


Habito um espaço que não me pertence,
Sentada ao lado de quem não me vê.
A solidão em dupla é o que me vence,
Um eco mudo que ninguém crê.

 

Sou o depósito onde despejas teu resto,
Corpo-objeto, função sem querer.
O sexo é o pacto do teu manifesto,
Onde eu sou o nada e tu és o ter.

 

Se abro a boca, a mesa se vira,
Minha angústia vira o teu tribunal.
Tua voz me condena, tua lógica gira,
E eu sou a culpada pelo meu próprio mal.

 

\"Não te esforças\", dizes, do alto do trono,
Enquanto eu carrego o peso de nós.
Sou o braço estendido, o eterno abandono,
Um nó na garganta que perdeu a voz.

 

Tenho que estar lá, pronta e aberta,
Servindo ao teu tempo, ao teu breve prazer.
Mas quando a minha alma desperta e deserta,
Teu vulto se esquiva, não tens o que oferecer.

 

Sou a estátua que limpas quando tens visita,
E que guardas no escuro quando o sol se põe.
Uma dor que em silêncio grita e habita,
No espaço que a tua ausência compõe.