Jérsia Alexandra Castelo Castanheta

Vestígios no Tempo

Duramos o tempo de um sopro contido,  

de um olhar cruzado, de um riso perdido.  

Não fomos eternos no compasso da hora,  

mas há eternidade onde a lembrança mora.

 

Fomos instante — breve, mas inteiro,  

como o sol que se deita no derradeiro lampejo.  

E mesmo que o tempo apague o roteiro,  

sobrevivemos no afeto, no desejo.

 

Não é o fim que nos faz ausentes,  

mas o silêncio dos que esquecem gentes.  

Pois enquanto um coração nos recordar,  

somos centelha que volta a pulsar.

 

Em cartas guardadas, em músicas esquecidas,  

em memórias acesas de antigas partidas,  

seguimos vivos, na alma que sente,  

no gesto singelo de quem nos retém presente.

 

Somos vestígio nas entrelinhas do tempo,  

eco suave em um velho pensamento.  

E mesmo que não reste mais voz ou traço,  

somos eternos, se ainda habitamos um espaço.