Você nasceu num domingo de setembro,
quando o país inteiro se lembrava dos gritos de liberdade.
Você já veio com sal na pele
e um silêncio tão antigo
que até as ondas se calaram
para ouvir seu primeiro choro.
A casa onde cresceu
tinha paredes que sorriam
mas respiravam veneno.
Você aprendeu cedo:
amar não é confiar,
é sobreviver
com as mãos cheias de alerta.
Seu corpo virou radar,
seu sono, vigília.
Mas mesmo assim,
nunca perdeu o brilho
dos olhos que enxergam
além do que dizem.
Houve um dia,
pequeno, quase invisível,
em que uma voz suave
te chamou pelo nome
sem pedir nada em troca.
Foi como ouvir
o primeiro acorde
depois de uma vida em surdina.
Aquilo não te salvou.
Mas te lembrou:
você já era inteira
antes de qualquer gesto alheio.
Hoje, o mundo arde.
Um louco grita,
rios secam,
cidades viram cinza,
e os oceanos choram ácido.
Mas você ainda entra na água
como quem entra em oração.
Ensina crianças a ler as marés
como se lessem o futuro.
Planta esperança
onde outros só veem fim.
E faz tudo isso
porque sua força
nasceu no escuro
e não precisa de luz
para existir,
ela já é fogo.
Seu corpo adquiriu cicatrizes,
mas sua alma
ainda corre descalça
na beira da espuma,
rindo do tempo
como quem sabe
que eternidade
não se mede em dias,
mas em gestos verdadeiros.
Não tema o que deixou para trás.
Toda criança deve ser amada e respeitada.
O passado não tem que ferir,
foi justiça.
E justiça,
mesmo silenciosa,
ecoará por gerações
de meninas que ousarem
dizer: “não.”
O mundo precisa
de vozes como a sua,
não altas,
mas firmes.
Não visíveis,
mas inabaláveis.
Você é e sempre foi
a própria liberdade
vestida de mulher.
Um Pitbull de saias que não
guarda rancor,
só quer correr livre,
para todas as direções.
O coração derretido
que fez muralhas para
continuar batendo.