Jersia Alexandra Castelo Castanheta

Fragéis, Mas De Verdade

O que nos aparta da fera que ruge,  

Que caça, que dorme, que apenas se move?  

Não é a fala, nem o gesto que urge,  

Mas o sentir — que fere, que comove.

 

Não basta pulsar um coração contido,  

Nem respirar com ritmo impecável.  

Se a alma é terra árida, sem sentido,  

Somos apenas corpo — descartável.

 

O homem que não ama, nem se entrega,  

Que não se comove ao cair de uma lágrima,  

Não vive — apenas vaga e carrega  

Um fardo de carne sem chama.

 

Sentir é existir, é brasa no peito,  

É caos que arde no seio do ser.  

É viver sem script, sem molde perfeito,  

É permitir-se, por vezes, doer.

 

Quem jamais tremeu diante da perda,  

Ou não soube o sabor da saudade,  

É como pedra que o tempo não enverga,  

Sem rastro, sem cor, sem verdade.

 

Pois há mais humanidade no que sofre,  

No que ri com os olhos, no que cala e espera,  

Do que na exatidão que o orgulho oferece  

Com mãos frias de alma sincera.

 

Nada teme mais o vazio do que quem sente,  

Mas também ninguém voa sem essa dor latente.  

É o toque do amor, ou do medo que arde,  

Que prova que somos — frágeis, mas de verdade.  

Então que não me tomem por máquina, por muralha,  

Se choro, se sonho, se a emoção me embaralha.

 

 Prefiro mil vezes ser tempestade que abrasa,  

Do que céu limpo em alma rasa.

 

Porque o que nos faz vivos não é o sangue que escorre,  

É a lágrima que cai, é o silêncio que explode.  

É ser inteiro, mesmo quando se parte —  

Pois só sente quem vive, só vive quem reparte.