O que nos aparta da fera que ruge,
Que caça, que dorme, que apenas se move?
Não é a fala, nem o gesto que urge,
Mas o sentir — que fere, que comove.
Não basta pulsar um coração contido,
Nem respirar com ritmo impecável.
Se a alma é terra árida, sem sentido,
Somos apenas corpo — descartável.
O homem que não ama, nem se entrega,
Que não se comove ao cair de uma lágrima,
Não vive — apenas vaga e carrega
Um fardo de carne sem chama.
Sentir é existir, é brasa no peito,
É caos que arde no seio do ser.
É viver sem script, sem molde perfeito,
É permitir-se, por vezes, doer.
Quem jamais tremeu diante da perda,
Ou não soube o sabor da saudade,
É como pedra que o tempo não enverga,
Sem rastro, sem cor, sem verdade.
Pois há mais humanidade no que sofre,
No que ri com os olhos, no que cala e espera,
Do que na exatidão que o orgulho oferece
Com mãos frias de alma sincera.
Nada teme mais o vazio do que quem sente,
Mas também ninguém voa sem essa dor latente.
É o toque do amor, ou do medo que arde,
Que prova que somos — frágeis, mas de verdade.
Então que não me tomem por máquina, por muralha,
Se choro, se sonho, se a emoção me embaralha.
Prefiro mil vezes ser tempestade que abrasa,
Do que céu limpo em alma rasa.
Porque o que nos faz vivos não é o sangue que escorre,
É a lágrima que cai, é o silêncio que explode.
É ser inteiro, mesmo quando se parte —
Pois só sente quem vive, só vive quem reparte.