Ah, o vazio. Sentimento traiçoeiro. Ele que rasteja para cima da cama no mesmo instante em que o sono sai à porta. Mas, traria mesmo esse pesar no fundo uma essência maligna e maquiavélica que parece contar nos dedos o tempo apropriado para aparecer? Eu tenho uma visão mais sincera e visceral do que seria essa angústia do espírito. O vazio nada é, do que um lembrete. Não do corpo ou da mente. Mas daquilo que é mais íntimo ao humano. Ele, como qualquer outro aviso, tem o dever de incômodar. Tal qual a mosca na sopa, ele tem como único propósito gerar repúdio, distância e desconforto. Ele diz o que o coração clama. Ele se faz como intermediário do ser consigo mesmo. Fazendo o papel de lembrar que os carros importados, as joias e as mansões só servem de enfeite para essa vizinhança cujo o alicerce foi feito de madeira podre devorada por cupins. Talvez o vazio seja a bússola do propósito. A única coisa que vai dizer que não se importa com as marcas de luxo no seu lixo. Mas sim, com a podridão faz sala no interior da sua alma.