Lucien Vieira

DESLAÇO

Quem sabe já nem seja mais tão-só um sinal confuso.

Teus espaços — meus, aparecem desconstituídos.

A presença inquietante do deslaço dos abraços,

desdizem os carinhosos olhares outrora acontecidos.

Incomoda esta sensação estranha de intruso.

 

Nas madrugadinhas, meus cuidados a ti dispensados — na cama,

recebem, remotíssimas vezes, no máximo um balbuciado bom dia.

Mas nunca, nunca, jamais um me ama;

 

O desjejum oferecido com carinho à mesa — esfria,

expressa-se, indisfarçável, no rosto, sério desdém.

É explícito o eu não quero, o eu não gosto, ou o não convém.

Analogamente, poderia ser uma expressa carta sem caligrafia.

 

Sou sobras, sou farrapos, sou modelo de lágrimas de alguém,

um vai e vem sem um sinal de fumaça, sem um vagão de trem,

que me guie, que me leve a algum lugar — além.