Versos Discretos

O Cânone do Desejo

 

A capa rígida cede ao toque dos dedos ansiosos, 
Iniciam-se as preliminares em letras capitulares: 
O roçar da polpa digital no relevo da lombada, 
Um tremor de papel que antecipa a carne ofertada. 
Despoja-se a sobrecapa, esse véu de seda e verniz,
Revelando o linho cru, o segredo que o corpo diz.

Abro-te ao meio, no centro exato do teu mistério, 
Onde o aroma de tinta e sândalo é o meu império. 
Minha língua percorre a margem, o espaço em branco, 
Enquanto teus suspiros se tornam versos de um canto estanque. 
Acaricio a textura da página, o fólio que se incendeia, 
No ritmo da respiração que o teu ventre tateia.

O ato se consome na métrica de uma estrofe ríspida, 
Penetro o enredo, a narrativa viva e multípida. 
Sou a pena que escreve em sulcos de fogo e umidade, 
Tu és o pergaminho que absorve minha voracidade. 
Movimentos de vai-vém, como olhos que varrem a linha, 
Numa síncope de fôlego que me faz teu e te faz minha.

As palavras perdem o nexo, tornam-se puro som, 
O clímax é uma iluminura, um brilho, um tom. 
O gozo explode como um ponto final de ouro, 
Derramando a tinta viva sobre o sagrado tesouro; 
Um espasmo de semântica, o ápice do entendimento, 
Onde o verbo se faz carne e o tempo se faz momento.