Gabi

Apenas uma saudade de algo próximo

Nunca fui boa com cartas,

mas existem palavras que pesam demais para ficarem presas no peito.

Então eu escrevo.

Escrevo para alguém que eu conheço melhor do que ninguém.

Alguém que insiste em se chamar de nada,

de inútil,

de invisível.

Mas que, na verdade, carrega mundos inteiros dentro de si.

Ultimamente, eu me sinto distante —

não de lugares,

mas de pessoas.

A casa ainda é a mesma,

os rostos também,

mas algo se perdeu no caminho.

Aqui, somos só eu, meu irmão e minha mãe.

E mesmo assim, às vezes, me sinto sozinha.

Minha mãe tenta.

Eu sei que tenta.

Mas tudo precisa ser do jeito dela,

no tempo dela,

no controle dela.

E eu me pergunto se existe espaço para mim fora desse molde.

Se eu pudesse ser quem ela espera,

talvez a gente se entendesse melhor.

Mas eu sou quem eu sou.

E isso parece nunca ser suficiente.

Eu queria ser amiga da minha mãe.

Queria poder sentar e contar do meu dia,

das minhas dores,

dos meus medos.

Mas o que mais acontece são silêncios pesados

e palavras que machucam.

Meu irmão não tem culpa de nada.

Mesmo assim, vejo nos olhos dele a mesma falta que existe em mim.

A falta de presença.

A falta de tempo.

A falta de cuidado.

E é estranho sentir saudade de alguém que está ali,

quase todos os dias.

Mas eu sinto.

Eu sei que não sou perfeita.

Erro, tropeço, falho.

Sou humana.

Mesmo assim, tento todos os dias dar orgulho.

Mas tudo o que recebo de volta é a sensação

de nunca estar certa,

de nunca ser boa o bastante.

Isso cansa.

Isso dói.

Não escrevo para me fazer de vítima.

Escrevo porque estou cansada.

Cansada das cobranças,

das expectativas,

da bagunça dentro de mim.

Às vezes, tudo o que eu quero

é dormir profundamente,

sem pensar,

sem sentir,

sem precisar ser forte o tempo todo.

Passei tanto tempo tentando ser a filha perfeita

que esqueci de aprender a ser apenas uma adolescente.

E quando tentei viver um pouco,

errei.

Me arrependi.

E a culpa virou companhia constante.

Já tentei me distrair,

fingir que está tudo bem.

Mas, muitas noites, me encontro sozinha no quarto,

chorando em silêncio,

com músicas tristes e pensamentos pesados.

Eu sinto falta da minha mãe.

Sinto falta do meu pai.

Não vejo meu pai há quatro anos,

e isso deixou um vazio que ninguém conseguiu preencher.

Eu entendo minha mãe.

Sei que não é fácil criar dois filhos sozinha,

trabalhar tanto,

carregar tudo nas costas.

Mas eu só queria que ela entendesse

que aqui dentro também dói.

Que eu também estou tentando sobreviver aos meus próprios dias.

Quando ela tem tempo livre,

eu sonho com momentos simples:

uma conversa,

um riso,

um pouco de nós.

Mas quase nunca acontece.

Ela precisa sair, respirar, se divertir.

E eu entendo.

Mas e nós?

E eu?

E meu irmão?

Às vezes, me sinto mais mãe do que filha.

Cuido, protejo, assumo responsabilidades

que pesam mais do que deveriam.

Eu também queria sair,

rir,

ser leve.

Mas, muitas vezes, isso vira motivo de brigas

e palavras que ficam ecoando dentro de mim.

Tenho saudade do que foi.

Ou talvez saudade do que nunca chegou a ser.

Só queria que nossa relação melhorasse.

Porque carregar tudo isso sozinha

me faz sentir pequena,

cansada,

quase invisível.

Mas, mesmo assim,

eu escrevo para lembrar:

eu não sou inútil.

Eu não sou nada.

Eu sou alguém que sente demais

num mundo que cobra demais.

E isso também é existir.