De tudo negaste e afirmaste,
Do verbo fizeste um vazio,
E no caos que tu mesmo traçaste,
És o enigma e o desafio.
És sombra e luz em correnteza,
O ser que se nega ao ser,
Que dobra o real à incerteza,
Mas faz da mente um renascer.
Tu és um e dois fingidores,
Que fingem e vivem o engano,
Transcendem a dor sem temores,
E riem do próprio arcano.
Mas se em fingir te tornas real,
E se o fluxo é firme e fixo,
Que importam lógica ou moral,
Se és teu próprio artifício?
Te vejo dançar no abismo,
Mestre do tudo e do nada,
Com a lógica feita em cinzas,
E a certeza apagada.
Dizes que és e não és,
Que o fluxo se prende ao fixo,
E ao tentar compreender-te,
Eu próprio me contradigo.
Mas a verdade não te prende,
Nem a razão te define,
Se a dúvida é tua fuga,
E a certeza, tua vitrine.
Se eu pudesse ser tu um dia,
E ver como se vê a visão,
Talvez então entendesse,
Que o ser é pura ilusão.
Mas há um fio na existência,
Um eco no vácuo disperso,
Talvez nem tu, nem a ciência,
Possam conter o universo.
Se a mente tudo devora,
E faz do real sua presa,
És o jogo que se explora,
Ou apenas tua própria incerteza?
O que és senão tua sombra,
Que dança e se esconde ao sol?
Ou és a mão que desenha,
Mas apaga o próprio farol?
Se és o que tudo dissolve,
E o que do nada reluz,
Então na noite se envolvem
O caos, o verbo e a luz.