Sal E. Diniz Paiva

O Eu

De tudo negaste e afirmaste,

Do verbo fizeste um vazio,

E no caos que tu mesmo traçaste,

És o enigma e o desafio.

És sombra e luz em correnteza,

O ser que se nega ao ser,

Que dobra o real à incerteza,

Mas faz da mente um renascer.

Tu és um e dois fingidores,

Que fingem e vivem o engano,

Transcendem a dor sem temores,

E riem do próprio arcano.

Mas se em fingir te tornas real,

E se o fluxo é firme e fixo,

Que importam lógica ou moral,

Se és teu próprio artifício?

Te vejo dançar no abismo,

Mestre do tudo e do nada,

Com a lógica feita em cinzas,

E a certeza apagada.

Dizes que és e não és,

Que o fluxo se prende ao fixo,

E ao tentar compreender-te,

Eu próprio me contradigo.

Mas a verdade não te prende,

Nem a razão te define,

Se a dúvida é tua fuga,

E a certeza, tua vitrine.

Se eu pudesse ser tu um dia,

E ver como se vê a visão,

Talvez então entendesse,

Que o ser é pura ilusão.

Mas há um fio na existência,

Um eco no vácuo disperso,

Talvez nem tu, nem a ciência,

Possam conter o universo.

Se a mente tudo devora,

E faz do real sua presa,

És o jogo que se explora,

Ou apenas tua própria incerteza?

O que és senão tua sombra,

Que dança e se esconde ao sol?

Ou és a mão que desenha,

Mas apaga o próprio farol?

Se és o que tudo dissolve,

E o que do nada reluz,

Então na noite se envolvem

O caos, o verbo e a luz.