A locutora condenada gira no centro do salão,
hipnótica, vestida de escarlate antigo,
tecido tingido com promessas quebradas e sangue sem nome.
Cada gesto carrega dor,
cada passo arrasta o desespero como uma sombra obediente.
Mudam-se os rostos,
os nomes,
onde o real foi abandonado
e tudo o que resta é uma ilusão bem ensaiada.
Aqui, nada é verdadeiro.
Tudo foi escrito antes de ser vivido.
Pintado com cores artificiais,
luz que imita esperança,
calor que finge vida.
Perguntas como sair.
Não há saída.
A revelação ocorre apenas
naqueles segundos miseráveis antes da morte,
quando o véu rasga
e os olhos finalmente veem:
foi sempre uma peça.
Atuamos sem saber o texto,
aplaudimos o próprio fim,
seguimos o mesmo destino
com a arrogância dos que acreditam escolher.
Ninguém quebra a cadeia.
Não há heróis na noite.
O regente condenado observa do porão escuro,
onde o tempo apodrece.
Com mãos invisíveis,
orquestra cada queda,
cada tropeço travestido de decisão.
E a música continua.
Sempre continua.
Francisco Monteiro