Amanda Suita de Moraes

Calendário de cinzas

Mais um ano se abre

como uma porta pesada de ferro,

rangendo nos nervos do mundo.

 

Não é o tempo que envelhece,

somos nós que ficamos sem ar

quando a história decide gritar.

 

Carrego nos ombros

o peso de amar demais:

a terra,

as pessoas,

o futuro que ainda não sabe

se quer nascer.

 

Sou feito de urgência,

de atenção que pula como faísca,

de um coração que não aprendeu

a ser morno.

E isso cansa.

Isso dói.

 

Há fogo onde antes havia vento.

Há sede onde o rio costumava cantar.

Há gelo endurecendo cidades inteiras,

como se o inverno tivesse esquecido

o caminho de volta.

 

O planeta pede silêncio,

mas os homens gritam.

Alguns brincam com o medo

como crianças cruéis

quebrando o próprio brinquedo

só para ouvir o estalo.

 

Enquanto isso,

alguém no sul vê a floresta arder

como uma carta nunca respondida.

Alguém no norte

aperta os braços contra o corpo

e espera que a luz volte.

Alguém em algum lugar

só queria viver.

 

Há guerras que rasgam mapas,

e há outras que rasgam dentro.

Explosões que não fazem barulho,

mas deixam tudo escuro

por muito tempo.

 

A sensação,

não dita,

não nomeada,

apenas presente

como um sol atrás de nuvens grossas.

Um amor que não coube no mundo,

mas insistiu em existir

no espaço exato entre

o que foi

e o que nunca pôde ser.

 

Talvez seja isso que ainda me mantém de pé,

saber que, em línguas diferentes,

em culturas distantes,

milhares sentem este mesmo nó,

essa vontade simples, quase infantil,

de acordar sem medo

e chamar a vida de casa.

 

Não há muita esperança hoje.

Mas há lucidez.

E há beleza nisso:

o despertar dói,

mas é sinal de que ainda estamos vivos.

 

Se o mundo arde,

que ao menos nossos olhos permaneçam abertos.

Se o futuro treme,

que nossos corações não aprendam a odiar.

 

Porque amar, agora,

é um ato de resistência.