Versos Discretos

Bioma de Desejo

 

O sol do Planalto castiga a pele, 
mas entre tuas pernas corre o Rio Quente. 
Tua geografia é cerrado bruto, 
onde a beleza não é óbvia, 
é preciso desvendar a casca grossa pra achar o mel.

Tua boca tem o travo do pequi: 
Invasiva, amarela, perigosa. 
Quem te morde com pressa se fere nos espinhos, 
mas quem te sabe o tempo, 
se lambuza no óleo denso do teu prazer.

Meus dedos são veredas, 
atravessando o capim-negro dos teus cabelos 
descendo pelos vales até encontrar o olho-d’água, 
aquela nascente escondida entre as pedras 
onde a terra ferve e a umidade é lei.

És fruta de época:
O aperto azedo do cajuzinho-do-campo, 
a polpa macia da cagaita que desmancha, 
o perfume embriagante da mangaba madura 
estourando no calor do meu peito.

Teu corpo se arqueia como os troncos do cerrado: 
Resistente, torto de gozo, sobrevivendo ao incêndio que eu comecei. 
Não é fogo de palha, é fogo de chão, subterrâneo, 
que queima as raízes até a alma virar cinza e renascer.

No horizonte da tua barriga, 
o poente é cor de sangue e de barro. 
Sou bicho caçador perdido na tua imensidão, 
morrendo de sede na beira do teu abismo.