Adam N

Entre O Que Restou de Mim

Oi… como você tá?

É estranho começar assim depois de tanto silêncio, eu sei.

Faz um tempo que eu ensaio essas palavras na cabeça,

mas sempre parecia cedo demais —

ou tarde demais.

Hoje não parece nenhum dos dois.

Só parece… inevitável.

Eu queria dizer que tá tudo bem,

mas isso seria mentira.

E eu prometi a mim mesmo não mentir mais

quando chegasse a hora de falar de verdade.

Tem algo em mim que mudou.

Não de forma bonita, não como nos filmes.

Mudou como rachadura em vidro:

silenciosa, quase invisível,

até o dia em que tudo quebra de uma vez.

Às vezes eu ainda pareço o mesmo —

rio, respondo, sigo andando.

Mas por dentro existe outra coisa vivendo comigo.

Ela pensa mais rápido, sente menos,

e nunca se cansa.

Eu, ao contrário,

já estou cansado há um tempo.

Eu tentei lutar.

Tentei ignorar, fingir que era só uma fase,

que bastava dormir melhor,

amar menos,

sentir menos.

Mas tem coisas que não vão embora

quando a gente fecha os olhos.

Elas ficam.

Esperam.

Talvez por isso eu esteja escrevendo agora.

Porque acho que vai ser difícil a gente se ver.

Não por falta de vontade —

mas porque eu já não sei

se quem iria aparecer

seria realmente eu.

Se em algum momento eu fui distante,

frio ou estranho,

não foi por falta de carinho.

Foi excesso de conflito.

Eu estava ocupado demais

tentando não desaparecer por dentro.

Existe uma parte de mim

que queria ficar.

Que queria mais tempo,

mais conversas simples,

mais dias comuns.

Mas também existe outra

que já entendeu

que algumas despedidas

não acontecem num lugar físico.

Se essa for a última vez que você lê algo meu,

quero que saiba:

o que foi real, foi sincero.

O que foi silêncio,

foi medo — não descaso.

Cuida de você.

De verdade.

E se algum dia lembrar de mim,

não lembra do que eu virei,

mas do que eu tentei ser

antes da fome,

antes da voz,

antes da queda.

É…

acho que agora era mesmo a melhor hora.

Com o que ainda restou de mim.