SADE

Cova rasa

A vida me acorda todos os dias
como quem empurra um corpo cansado para fora da cova
antes do tempo.

A manhã nunca chega limpa.
Ela vem manchada,
com cheiro de desilusão,
com a luz agressiva atravessando os olhos
como um interrogatório que não tem resposta.

Eu levanto sem fé,
sem promessa,
sem a ilusão de que hoje será diferente.

O mundo insiste em girar
mas tudo em mim permanece parado,
apodrecendo lentamente
num canto que ninguém visita.

As pessoas passam por mim
com sorrisos treinados,
com palavras ocas,
vivendo amores rasos
como poças sujas depois da chuva.

Elas falam de amor
mas não sabem ficar.
Não sabem sentir.
Não sabem sangrar por dentro
sem pedir aplauso.

Eu olho para elas
e sinto a desilusão crescer
como mofo nas paredes da alma.

Este mundo não ama.
Ele consome.
Usa.
Descarta.

E chama isso de viver.

A vida pesa.
Pesa como um caixão carregado sozinho.
Cada respiração é um esforço consciente,
cada passo é um acordo temporário com o sofrimento.

À noite,
o silêncio não traz descanso.

A noite apenas amplifica tudo.

Os pensamentos gritam.
As memórias apodrecem em looping.
O medo da vida se senta ao meu lado na cama
e me observa tentar dormir
como quem sabe que eu não vou conseguir.

Durmo mal.
Durmo pouco.
Durmo quebrado.

E acordo mais cansado
do que quando me deitei.

Há uma dor constante,
surda,
invisível,
que me acompanha do nascer ao morrer do dia.

Uma dor que não pede socorro,
porque já desistiu de ser salva.

Às vezes penso na morte
não como tragédia,
mas como descanso.

Como um quarto escuro
onde ninguém exige nada.

Onde não há expectativas.
Onde não há decepções.
Onde o mundo finalmente cala.

Não é um desejo violento.
É um cansaço profundo.

É querer silêncio.
É querer fim.

A vida assusta mais do que a morte.

A vida promete demais
e entrega de menos.

Ela seduz no começo
e abandona no meio do caminho.

E eu sigo aqui,
com medo de continuar,
sem coragem de parar,
preso entre dias que machucam
e noites que não curam.

Sou feito de desilusões acumuladas,
de afetos não correspondidos,
de sonhos que apodreceram
antes mesmo de nascer.

Carrego um luto constante
por tudo que poderia ter sido
e nunca foi.

E enquanto o mundo insiste em sorrir falsamente,
eu caminho por dentro da minha própria sombra,
aprendendo a conviver
com essa vontade silenciosa de desaparecer,
com essa intimidade estranha com a morte,
com esse amor impossível pela paz
que a vida nunca soube me dar.

E ainda assim,
eu acordo.

Mesmo sem saber por quê.