Entrei para falar da dor
encontrei um silêncio que escutava
Não vim para ser curado
(ninguém se cura de si)
vim porque o dia
pesava mais do que eu
O que parecia ser conversa
era uma lenta escavação
onde uma palavra puxa outra
onde lacunas começam a falar
e a memória aprende a respirar
E de camada por camada
apareço aos poucos em fragmentos
como fotogramas de um filme mudo
a encontrar a sonoridade de suas legendas
Ao final
saio com menos urgência
e mesmo que a dor continue
agora ela sabe onde se sentar
e algo em mim deixou de pedir
permissão para apenas existir