Gilberto Lima

Padrão Original

Antes do nome virar máscara,
antes do mundo pedir currículo à alma,
houve um som inaugural —
curto como um sopro, vasto como um céu sem borda:
o primeiro nome.

Ele nasceu quando a palavra ainda era rito,
e não etiqueta.
Quando dizer era acender,
e não apenas apontar.

O primeiro nome não veio para explicar —
veio para convocar.
Senha de uma porta que não se vê,
metal ainda bruto na forja do peito,
mapa sem legenda
que só a vida aprende a ler.

Há um segredo que o tempo não consegue apagar:
o primeiro nome é o padrão original.
A matriz íntima —
aquilo que se passa a vida buscando sem saber,
como quem procura a própria casa
em ruas que nunca viu.

Por isso a busca é eterna e, no início, inconsciente:
corre-se atrás de versões,
colecionam-se espelhos,
aprendem-se papéis com excelência…
e o coração, silencioso, insiste
naquilo que reconhece antes de compreender.

Porque já existíamos
antes do primeiro nascimento.
Antes do corpo assinar a matéria,
antes da densidade fechar a porta do infinito.
Havia um “antes” sem relógio,
um estado de ser sem peso,
onde identidade não era defesa —
era vibração.

Então vem a troca de peles.
A cidade encosta suas mãos no rosto
e chama de “normal” o que é só costume.
A rotina veste com tecidos práticos:
função, urgência, prova, resposta.
E o primeiro nome
fica guardado em algum lugar do silêncio,
como um instrumento fino
que ninguém mais afina.

Mas ele não morre.
Ele espera.

E quando a busca atravessa a névoa
e se torna consciente,
não é “mudança de opinião”:
é o que chamamos de despertar.
Um estalo elegante —
como se a alma dissesse:
“Ah… então era isso que eu estava lembrando.”

Reconhece-se —
com uma calma quase insolente —
que não se cabe no que o espelho confirma.

No despertar, isso acontece sem alarde:
fica claro que se é mais do que a imagem,
mais do que o nome social,
mais do que a pele que o mundo aprendeu a ler.

E então uma lei sutil se revela:
não basta “se saber” — é preciso se encontrar.
Encontrar-se de verdade:
tocar o próprio centro
e sentir o corpo de luz voltando ao corpo,
como presença ocupando o que sempre foi seu.

E, ao se encontrar, se conectar —
não a alguém,
mas ao próprio eixo.
Fechar o circuito interno
entre mente, coração e substância,
até que o ser deixe de ser fragmento
e se torne unidade.

Nesse ponto, a busca muda de textura.
Vira compromisso.

Algo se alinha por dentro,
como se a vida inteira estivesse esperando
aquele encaixe silencioso entre essência e direção.
E, discreta e sobriamente,
a unidade se acende: torna-se luz —
não espetáculo,
mas clareza.

A troca de peles, afinal, não era perda:
era teste de fidelidade.
A vida mudou por fora
para ver se o centro permanecia.

E quando a clareza chega,
tudo fica simples do jeito certo:
o ruído cai,
o chamado permanece,
e o caminho — finalmente —
parece lembrar o padrão original.

Aí se entende por que o primeiro nome não é passado:
é origem em estado de presença.
É a nota fundamental
quando toda música se confunde.
É a casa invisível,
agora acesa por dentro,
no exato ponto em que o ser inteiro diz:
Eu Sou.