G. Mirabeau

CASSIOPÉIA

 

Vou...

De onde não sei

Para não sei onde.

 

Vou...

Vou procurar a manhã

Onde o tempo a esconde.

Rebatizar-me na cósmica radiação,

Usurpar-me da irreal condição...

Vou reviver

O homem-coração...

 

Vou...

Vou embalar-me

Nesta mansidão;

Na ilusão do ser,

Do ter à minha mão

Todas facetas

Deste poliedro;

Do mar essência;

Da madeira cedro;

Das esperanças

Que tarde carrego

- À impotência

Do meu ódio cego! -,

À minha infância

Qual doce me entrego...

 

Sou...

A ilusão.

A própria... E me exponho

A morrer sempre,

Sempre o mesmo sonho!

A voar morto

Ao futuro estranho;

A cair roto

Sem um só arranho;

A perder corpo

Até não ter tamanho...

 

Sou...

A panacéia

Para todo bem;

De Cassiopéia

Nebulosas cem

A correr rosa

Como me convém,

A bater prosa

Mesmo com ninguém;

A vida-a morte;

O céu-o mar;

Mal-Bem!

 

Mas,

Se me revolvo

Em torno de mim mesmo,

Evolve o frio

E me sinto ermo;

Apago o dia

De meu Sol já negro

E à poesia,

Lânguido, me cedo

E, por instantes,

Não conheço medo...