Versos Discretos

A Liturgia do Abandono

 

A inutilidade destes versos me afronta,
como a secura de um deserto diante do teu oceano oculto.
Escrevo e peco: minha língua, errante e ávida,
perde-se antes de encontrar o vértice sagrado,

A dobra úmida onde o teu nome se faz carne e silêncio.
Nada em minha sintaxe te despe com a urgência que a pele exige.
Quisera eu que o poema fosse mão tátil e pensante,
um falo de tinta traçando o mapa do teu delírio,

Dedo que percorre a seda do teu ventre com a precisão de um amanuense
que decifra, entre gemidos, as margens apócrifas de um corpo que nunca aceitou ser dogma.
Mas meus versos, por ora, apenas sitiam a tua fortaleza.
Rondam a curvatura de teus quadris, mas hesitam.

Hesitam em violar o território do absoluto abandono.
Param, trêmulos, no umbral do teu sexo,
como se temessem profanar a arquitetura de mármore e fogo
que o teu repouso oferece ao meu olhar faminto.

Ainda assim, persisto nesta insandice.
Porque descrever-te é a forma mais vasta de sucumbir ao prazer.
Se não penetro o teu mistério, ao menos te invoco em espasmos.
Se não te toco a essência, preparo o altar do mundo
para o instante em que minha palavra, enfim, se dissolva dentro de ti.