Nelson de Medeiros

SUSPIROS

SUSPIROS

 

O sol, em azul-rubi, a tarde finda
em céu de luz que lento desvanece;
a dor do mundo o bardo agora esquece
e busca o que é de bom na Terra ainda!

 

Sua chama inspiradora se engrandece:
olhando então a musa, ele se inclina
e, ao ouvido, lhe diz quase em surdina:
— O teu rosto é o céu da minha prece!

 

Ela, fitando a tarde que morria
num tom de azul e fogo, matizada,
envolvida na divina aquarela,

 

indaga: — “Acaso fazes poesia?”
— Não — diz o bardo à musa deslumbrada —
ao contrário, eu que sou feito por ela!

 

Nelson de Medeiros