Ozana Anjos Santana

A VOZ QUE MORA NA TINTA

Pequena em forma, imensa em intenção,
Repousa discreta entre os dedos da mão;
Mas guarda em silêncio um vasto universo,
Capaz de dar vida ao mais simples verso.

Com ela se escreve a dor e a esperança,
O medo que grita, o sonho que avança;
É ponte sutil entre a alma e o papel,
Pensamento que escorre em traço fiel.

Ela não grita, mas sabe existir,
Rabisca verdades que o tempo há de unir;
Registra promessas, juras e leis,
E muda destinos de um, dois ou três.

Em traços firmes ou linhas incertas,
Abre caminhos, destranca portas abertas;
Onde havia vazio, inaugura sentido,
Onde havia silêncio, um som é erguido.

Foi com ela que a história nasceu:
Reis assinaram, o povo escreveu;
Em pergaminhos, cadernos ou chão,
Moldaram-se eras com simples pressão.

Na escola, ensina a primeira lição,
Desenha futuros na palma da mão;
Cada letra torta, cada erro comum
É passo inaugural para ser mais que um.

Ela consola quem precisa falar
Quando a voz falha e não quer mais tentar;
No papel, o peito encontra alívio,
E a dor se refaz em lúcido abrigo.

É arma pacífica, sem sangue ou guerra,
Que luta com ideias e atravessa a terra;
Constrói pontes, derruba muralhas,
Vence batalhas sem usar medalhas.

No bolso do poeta, é chama acesa;
No do cientista, exata certeza;
Para o advogado, justiça e razão;
Para o artista, pura criação.

Mesmo na era do toque digital,
sempre resiste, firme e leal;
Pois nada substitui o gesto humano
De riscar o mundo com próprio plano.

Ela não julga quem a faz escrever:
Aceita a pressa, a dúvida, o viver;
Segue a mente, escuta o coração,
E eterniza instantes em cada inscrição.

Ó simples caneta, de humilde poder,
Ferramenta eterna de escrever e ser,
Que nunca nos falte teu silencioso dom,
O de transformar pensamento em tom.