Gustavo Felipe

Terra de andorinhas.

Hoje contemplei a natureza e o aroma matinal trouxe-me um estranho medo da lucidez. Porque a lucidez explica demais, e quem explica estraga o encanto. Sob a reflexão deste dia, sinto-me num despropósito, como uma pedra que não serve para construção, apenas para ser pedra. Nada sou, nem nada me resta, a não ser essa ignorância fértil: hoje vi também que as andorinhas sabem muito mais das chuvas do que os cientistas. Elas sentem a tempestade nas penas e eles, apenas nos gráficos.

Aprendi contigo que não somos feitos de concreto, somos como árvores com as raízes nascendo da terra e crescendo pouco a pouco, dessa mesma terra vem a lição todas as coisas que podem ter qualidades humanas, mas é daqui também que os poetas roubam as qualidades das árvores: o silêncio, a espera e a capacidade de dar sombra sem cobrar nada.

E eu, que vivo de desver o mundo, encontrei na minha incompletude o privilégio de gritar dentro de mim e não ouvir respostas. Apenas o eco do meu próprio vazio. E descobri que o vazio não é falta é, sim, um estado poético.

Por isso, a minha pressa vagarosamente percorre a geografia da tua mente, sem atalhos ou mapas. E é dessa jornada sem ponto de partida ou de chegada que imagino que o mundo, visto do ponto de vista de uma andorinha, lá do alto, seria, com certeza, um mundo finalmente livre de poesias.