Versos Discretos

O Prelúdio do Abismo

 

Não será um toque, mas uma invasão consentida,
Onde a respiração se perde no contorno do teu rosto. 
Quero buscar em ti a nota mais grave e escondida, 
E ver o teu juízo render-se, enfim, ao meu gosto.

Meus dedos subirão pela nuca, em traço lento, 
Enquanto os teus lábios, em arco, esperam o açoite. 
Um beijo que não pede licença ao tempo, 
Mas que inaugura, em nós, a mais profunda noite.

Sentirás o calor que devora a distância, 
Uma colisão de línguas, saliva e labareda, 
Onde o fôlego se esvai na mais pura inconstância, 
E a razão se desfaz como um fio de seda.

Quero o teu suspiro preso no fundo da garganta, 
O gemido abafado pelo encaixe da minha boca, 
Até que a tua pele, em arrepios, se levanta, 
E a sede de mim te deixe, enfim, ébria e louca.

Beijar-te-ei até que o mundo seja apenas esse átimo, 
Um vácuo de oxigênio onde o sangue pulsa e queima, 
Até que, exausta, me entregues o teu último íntimo, 
Na volúpia sagrada de quem já não mais teima.