Senhores, abram a porta da memória,
escutem a rabeca, o coração em história.
Chego com passos de chão vermelho,
trazendo os ecos do tempo, o sopro do velho.
Ozana, nome de súplica e luz,
dos Anjos, mensageira que conduz
entre terras e rios, entre risos e dor,
filha de Santana, guardiã do amor.
Nasci onde a terra cheira a mandioca,
onde o sol molda a pele e a roça invoca.
Oito irmãos, ecos de ancestrais,
cabelos de vento, pele de cais.
Pai, Divino Lé, de mãos pequenas,
carregava mundos nas linhas serenas
do trabalho árduo, do arroz e milho,
tecendo dignidade no tecido do brilho.
Mãe, alquimista da farinha e do pão,
transformava pobreza em criação.
Do vestido de noiva, fez armadura escolar,
para filhos lutarem e o saber conquistar.
A escola era longe, oito quilômetros a pé,
mas cada passo era resistência, fé.
Lápis e borracha, tesouros de papel,
nos dedos, magia; no coração, céu.
Entre lamparinas e noites de luar,
inventávamos mundos para brincar.
Bonecas de milho, cavalos de pau,
no campo o infinito, no coração o azul.
Racismo e silêncios, sombras do caminho,
mas a memória acende luz no destino.
Cada gesto mínimo, cada suor derramado,
torna-se poema, resistência, legado.
Cresci entre livros, pó e semente,
aprendendo que o saber é ponte presente.
Pedagogia quilombola, voz da terra e raiz,
tradição que ensina quem verdadeiramente quis.
E hoje, ao cantar com rabeca e coragem,
revelo a vida como herança, como viagem.
Entre memórias, afetos e pesquisa,
descubro que conhecer é resistir, é a vida que se visa.
Pois somos todos cantos de rios antigos,
memórias guardadas nos gestos e nos amigos.
O currículo da vida, quilombola, ancestral,
nos ensina que o saber é força, é imortal.