SADE

O AMOR EM DECOMPOSIÇÃO

O amor hoje
é um corpo envenenado
jogado na sarjeta do tempo.
Não enterraram.
Deixaram ali,
inchando em silêncio,
fedendo abandono
e chamaram isso de normalidade.

As pessoas passam por cima.
Desviam.
Fingem que não veem.
Como fazem com tudo
que exige responsabilidade emocional.

As relações são cadáveres ambulantes.
Andam, falam, transam,
mas já estão mortos por dentro.
Envenenados por ego,
por medo,
por essa covardia coletiva
de não querer sentir nada de verdade.

O veneno entrou devagar:
um pouco de indiferença aqui,
um pouco de cinismo ali,
até o coração parar
sem ninguém notar.

E eu?
Eu ainda estou vivo.
E isso me coloca em desvantagem.

Sou romântico
num lixão de afetos.
Sou carne quente
num mundo que escolheu apodrecer
pra não ter que cuidar de ninguém.

Eu sinto raiva
porque ainda acredito.
Raiva de procurar amor
entre restos emocionais,
entre gente que cheira a decomposição
mas se acha evoluída.

Me chamam de intenso
como se fosse xingamento.
Me chamam de problemático
porque eu não sei amar morto.

O caos se espalha
como toxina na corrente do mundo.
Contamina a convivência,
mata a paciência,
transforma pessoas em coisas
e coisas em prioridades.

Todo mundo anestesiado.
Todo mundo orgulhoso da própria frieza.
Todo mundo com medo
de sentir qualquer coisa
que não dê pra desligar depois.

Eu caminho nesse cenário
com o ódio limpo
de quem ainda tem pulso.
De quem não se acostumou
a viver como um corpo intoxicado
fingindo que está tudo bem.

O amor não acabou.
Ele foi assassinado lentamente
pela preguiça emocional,
pela cultura do descarte,
pela glorificação do vazio.

E eu sou o idiota
que ainda procura vida
no meio desse cemitério social.
O errado.
O ultrapassado.
O romântico.

Se amar hoje
é ser um erro ambulante,
então que seja.

Prefiro explodir sentindo
do que apodrecer em silêncio.
Prefiro a raiva honesta
do que essa paz podre
de quem já morreu por dentro
e chama isso de maturidade.

Sou romântico.
Sou raivoso.
Sou vivo.

E nesse mundo intoxicado,
isso é quase um crime.