O ano abriu-se pesado, sem pedir licença,
como um livro antigo caindo sobre a mesa.
Antes do samba, do riso e da fantasia,
a História limpou a garganta e falou.
Fevereiro mal respirava carnaval
quando a palavra denúncia rasgou o calendário.
Não era um homem apenas que sentava no banco,
era um projeto de ruptura sendo interrogado.
Golpe, violência, organização armada
nomes duros, gravados no mármore do tempo.
Oito de janeiro seguia em estilhaços,
lembrando que a memória também acusa.
Vieram os julgamentos, longos como o luto
da pandemia sem justiça, sem absolvição.
Setecentas mil ausências ocupavam o plenário,
fantasmas civis exigindo resposta.
E a resposta veio tardia, mas veio:
condenação, prisão, fim do escudo político.
Vinte e sete anos pesando como símbolo,
não de vingança, mas de limite histórico.
Mas o mundo não parou para assistir.
Do Norte, soprou o vento velho do império.
O presidente dos Estados Unidos, Trump,
ergueu tarifas como muros comerciais.
Cinquentas por cento de peso sobre produtos,
retaliação travestida de diplomacia.
Punir o país, pressionar a Justiça,
chamar soberania de afronta.
O Brasil sentiu o golpe no bolso e na balança,
e aprendeu que independência não é discurso:
é resistir quando o mercado ameaça,
é não ajoelhar diante do poder estrangeiro.
Enquanto isso, tronos também caíam.
Um Papa morreu, e o mundo silenciou.
Até o sagrado lembrou aos homens
que nenhum poder é eterno.
No palco dourado da cultura, outro gesto:
o Brasil ganhou seu primeiro Oscar.
Ainda Estou Aqui disse o cinema,
e a democracia respondeu: eu também.
A arte abriu feridas que a lei evitava,
fez a ditadura reaparecer sem véu.
Desaparecidos chamaram pelo nome,
e a anistia tremeu sob luz direta.
Nas sombras digitais, os novos donos do mundo
sorriam em posses e algoritmos.
Big techs dobravam parlamentos,
vendendo futuro em pacotes de dados.
Mas jornalistas seguiram o rastro invisível,
mapearam lobbies, expuseram engrenagens.
A palavra voltou a ser trincheira
contra o silêncio comprado.
E então o clima, cansado de esperar,
fez-se protagonista absoluto.
Águas engoliram cidades,
secas queimaram promessas.
Na Amazônia, o planeta se reuniu.
Belém virou centro do debate humano.
Indígenas, ribeirinhos, mulheres, jovens
marcharam exigindo justiça climática já.
Houve avanços, discursos, compromissos frágeis,
mas os fósseis permaneceram sem adeus.
A floresta ensinou, mais uma vez,
que não se negocia com o colapso.
Entre guerras, fronteiras e crianças soterradas,
Gaza, Israel, um mundo em ruína repetida,
os direitos humanos pediram socorro
num século que insiste em esquecê-los.
E, mesmo assim, a palavra ficou.
Reportagens salvaram nomes do esquecimento,
imagens entraram nos autos da Justiça,
vozes romperam o ruído do medo.
2025 terminou sem conforto,
mas com consciência mais afiada.
Foi o ano em que o tempo cobrou a conta,
e o mundo teve de olhar para si.
Não foi um ano leve.
Foi um ano de escolha.