O Náufrago
Sou náufrago sem destino, Encalhado entre as rochas e o sal. Não espero resgate ou sinal divino, Pois aprendi a habitar este exílio.
Não temo o naufrágio, nem o fim da jornada, Pois afundar é a prova de que se ousou embarcar. Não temo o desamparo, nem a quilha quebrada, Nem o golpe seco que a sorte me fez sentir. Não odeio a maresia, nem meu próprio vazio; Longe do ruído, no mais profundo lugar, Minha alma mergulhou no silêncio e aprendeu a respirar debaixo do mar.
Por que o arrependimento? Por que a dor? Se nem mesmo os pássaros lamentam o bater de asas... Mesmo que caiam entre as rochas, sem vigor, se levantam contra o peso do próprio abismo. Caíram mil vezes, até que o vento o aceite, Até que a asa seja forte para o ar. Enquanto mim se houver brisa, mesmo que gélida e fraca, Estarei pronto para novamente embarcar.
O destino pode nunca vir a me encontrar, Mas não entrego a esperança ao esquecimento. Se o mundo, em sua fúria, tenta me naufragar, Uso as ondas do tempo para acalmar a tempestade. Em silêncio me guardo, e vivo um dia após o outro.
Cada poema escrito é uma garrafa lançada, uma mensagem selada entregue ao oceano. Não vejo, não ouço, não sinto, apenas sigo nesta jornada, Escrevendo ao desconhecido que queira me ler.
Prefiro o escuro onde os olhos já aprenderam a enxergar, Pois perder-se é, também, uma forma de se encontrar. E se uma nova luz, enfim, vier a emergir, Sorriremos como tolos, prontos para recomeçar.
Dizem que o amor é dos tolos? Que assim seja. Serei o primeiro, neste lugar isolado. Apesar de perdido, por tanto te querer, tenho uma bússola que me guia até que possa ver luz na escuridão.