Ester Araújo

Me escondi dentro de mim

Já me senti perdida,

confusa,

deslocada do próprio lugar.

 

Já fui tristeza que pesa,

mágoa que cala,

apatia que observa de longe.

 

Mas nada doeu tanto

quanto desaparecer em silêncio.

 

Não foi um sumiço brusco.

Foi aos poucos.

Um gesto engolido.

Uma escolha adiada.

Uma voz diminuída

até virar eco.

 

Hoje me olho no espelho

e reconheço o rosto,

mas não me encontro.

É como habitar um corpo

sem permissão de ser.

 

Roubaram-me a autonomia

com delicadeza suficiente

para eu não perceber.

Quando notei,

já estava me adaptando

a não existir inteira.

 

Ainda assim,

há algo que resiste.

 

Porque quem se sente apagada

ainda sente.

Quem nomeia o vazio

ainda está aqui.

 

E mesmo encoberta,

eu sou chama sob a cinza,

presença em suspensão,

vida aguardando espaço.

 

Não desapareci.

Estou em pausa.

Esperando o instante

em que eu mesma

me escolha outra vez.