Já me senti perdida,
confusa,
deslocada do próprio lugar.
Já fui tristeza que pesa,
mágoa que cala,
apatia que observa de longe.
Mas nada doeu tanto
quanto desaparecer em silêncio.
Não foi um sumiço brusco.
Foi aos poucos.
Um gesto engolido.
Uma escolha adiada.
Uma voz diminuída
até virar eco.
Hoje me olho no espelho
e reconheço o rosto,
mas não me encontro.
É como habitar um corpo
sem permissão de ser.
Roubaram-me a autonomia
com delicadeza suficiente
para eu não perceber.
Quando notei,
já estava me adaptando
a não existir inteira.
Ainda assim,
há algo que resiste.
Porque quem se sente apagada
ainda sente.
Quem nomeia o vazio
ainda está aqui.
E mesmo encoberta,
eu sou chama sob a cinza,
presença em suspensão,
vida aguardando espaço.
Não desapareci.
Estou em pausa.
Esperando o instante
em que eu mesma
me escolha outra vez.