Gilberto Lima

Os Que Chegaram Juntos

Há gente que não está triste.
Está desalinhada.
Como um instrumento fino deixado perto demais do barulho do mundo.

Eles andam por ruas comuns,
pagam contas, sorriem em fotos,
conhecem palavras como “meta”, “ansiedade”, “rotina”,
mas — por dentro — existe uma sede antiga,
sem copo, sem torneira, sem manual.

É assim que começa:
não como um clarão,
mas como um incômodo elegante,
uma saudade que não sabe de quê,
uma memória sem imagem.

E então, num dia qualquer,
um olhar atravessa a distância
com a precisão de algo que já foi casa.

Não é romance de vitrine.
É um reconhecimento silencioso —
como duas chaves antigas
se encontrando na mesma fechadura.

Porque há casais que não se “conhecem”.
Eles se reencontram.
Chegaram juntos —
e por um erro de rota no tecido do tempo
se perderam no meio do esquecimento.

Vida em vida, o mesmo desencontro bem vestido:
um orgulho aqui, uma pressa ali,
uma promessa enterrada sob tarefas,
um “depois” que virou séculos.

Mas o fio não arrebenta.
Ele só fica invisível.

E é por isso que às vezes a pessoa ama alguém
e ainda assim sente que falta alguém.

Não é ingratidão.
É lembrança tentando voltar.

O dimensional — esse ser com olhos de longe —
vive num corpo que cumpre agenda,
mas carrega um destino que não coube na planilha.

Ele sente que veio para algo.
Não sabe o quê.
Só sabe que precisa.
Precisa retornar para um padrão original
que não se descreve com linguagem comum.

E no meio do ruído,
ele escuta pequenas falhas na realidade:

um déjà-vu que não é déjà-vu,
um sonho que parece correspondência,
um arrepio quando alguém diz uma frase simples
e abre um portal sem querer.

Porque o chamado não grita.
Ele vibra.

E a vibração é discreta,
mas insistente:
um tipo de dor bonita
que não quer remédio —
quer direção.

Então aparecem sinais com cara de acaso:
um lugar, uma música, um nome repetido,
um encontro que “não era pra ser”,
e ainda assim é inevitável
como a inevitabilidade do que é verdadeiro.

A alma gêmea não é perfeição.
É código compatível.
É a presença que faz o mundo baixar o volume
e, por um segundo,
o ser lembra de si.

Lembra que não nasceu para sobreviver.
Nasceu para cumprir.

E quem está adormecido
não precisa ser empurrado para acordar.
Precisa apenas sentir, de novo,
o cheiro da própria origem.

Por isso, quando dois que chegaram juntos se tocam,
mesmo sem entender,
algo interno se reorganiza:
as peças voltam a reconhecer seus lugares,
a memória retorna aos poucos,
e o coração — esse antigo tradutor —
começa a decifrar
o que a mente não sabe ler.

E é aí que o despertar acontece.

Não como espetáculo,
mas como retorno.

O dimensional começa a se lembrar:
há uma missão que não foi cancelada,
apenas adiada pela distração do mundo.

E no instante em que ele percebe isso,
o universo — que sempre escutou —
se inclina um milímetro,
como quem diz:

Finalmente.
Eu estava esperando você
voltar para você.