Yves de Sá

Me e Te

me toca sem tocar
te afasta ficando
dois pronomes mínimos
colidindo no silêncio

me diz ficando mudo
te fere sem gesto
há coisas que só existem
quando não são ditas

me faço resto
te faço ausência
não por maldade
mas por excesso de sentir

me carrego como falha
te levo como sombra
não pesa
mas ocupa

me sei mancha
te sei espelho quebrado
não há pureza aqui
só continuidade

me houve amor
te houve cuidado
e isso é o que dói
porque existiu

me habita o vazio
te habita a distância
ambos imóveis
aprendendo a não pedir

me e te
átomos oblíquos
ligados por um erro antigo
que nunca explodiu
só permanece.