Victória Bianca

Paralisação cardíaca nacional ameaça setor público

Manifestantes tomaram as ruas da cidade, nesta sexta-feira, para protestar contra o corte no orçamento público do amor. Segundo eles, o novo projeto de lei pretende drenar o já escasso afeto coletivo e reduzir ainda mais o rarefeito cuidado.

 

As entidades responsáveis alegam que a máquina estatal não comporta a demanda de ternura em escala nacional.

Relatórios recentes mostram que o maquinário existente foi enferrujado pela pressa, rangendo de dor constantemente, e que há cada vez menos mão de obra especializada na calibragem de sentimentos. 

 

Os técnicos afirmam que a falta de matéria-prima (conversas longas, silêncios gentis, laços e acasos) diminui drasticamente a vida útil dos produtos afetivos, aumenta a rotatividade do mercado e empurra o mundo para um colapso global no campo econômico-emocional.

 

Funcionários do setor declamam “falta pessoal capacitado para operações delicadas, como dizer ‘fica’ sem parecer súplica, ou ir sem ferir ninguém”. 

O Ministério da Saúde alerta para uma epidemia de covardia.

 

Entre as pautas de reivindicação, o preço médio do amor é o item mais alarmante. Desde o último reajuste inflacionário, que privatizou o ócio e taxou a vida contemplativa, amar ficou caro demais. Em nota oficial, a defensoria alega que “não há estoque de horas nem de trovas para atender às demandas afetivas per capita”.

 

Diante disso, a Associação de Amadores e Amantes ameaça uma greve geral dos corações, uma paralisação cardíaca que seria fatal para o mercado e para os próprios manifestantes.

 

Enquanto isso, especialistas de boteco em raro consenso alertam “mais vale o afeto artesanal”.

O governo repete “não há licenciamento para tal”.