Charles Araújo

CÁLCULOS VAZIOS E CITAÇÕES DE MORAL

CÁLCULOS VAZIOS E CITAÇÕES DE MORAL

 

A cidade lá fora um pandemônio como sempre cuspindo buzinas, fritando gente no asfalto quente. dentro do apartamento o ar não era algo pra dizer melhor. Cheirava nicotina, desilusões mofo e alguma coisa que talvez tivesse morrido na pia há semanas. O ventilador girava como um bêbado arrependido, sem forças para fazer diferença.  

 

Helena estava jogada no sofá, pernas abertas, cigarro entre os dedos, um livro de Kant caído na barriga como se filosofia pudesse explicar por que diabos as pessoas insistiam em se ferrar tanto. O cinzeiro já estava entulhado, mas ela não se deu ao trabalho de esvaziá-lo.  

 

No outro canto, Clara se enterrava nos números, afundada até o pescoço em planilhas e gráficos que, no fundo, não significavam nada

Além de distração para esquecer a conta bancária, a dissertação que nunca seria escrita, o pai que esperava um diploma que nunca viria.  

 

O teclado fazia tac-tac-tac como uma máquina de hemodiálise mantendo um paciente à beira da morte. Ela não respirava, arfava. Um animal acuado diante da própria mediocridade.  

 

— O homem só é livre quando faz o que não quer 

disse Helena, soltando a fumaça pelo nariz, como quem faz uma prece ao diabo.  

 

Clara não respondeu. Continuou ali, fingindo que os números podiam salvá-la, que alguma fórmula ia tirar aquele peso do peito. Mas então ela parou. O olhar fixo na tela, arregalado, como se tivesse acabado de ver um fantasma ou, pior, sua própria vida passando em câmera lenta.  

 

Ela soltou um riso. Baixo, curto, sujo.  

 

— A tendência do mercado é a bolha estourar.  

 

Helena sorriu. Ah, sim. Aquilo ela conhecia bem. O cheiro da ruína sempre foi seu perfume preferido.  

 

— Você precisa, né? murmurou, olhos preguiçosos, voz lenta e anasalada gim? Nicotina ou…?

 

Clara hesitou. Sempre hesitava. Mas o corpo já estava implorando, e hesitação não enche estômago nem mata sede.

 

Helena se levantou e puxou Clara com força. Nada de carinho, nada de preliminares melosas. O beijo foi um soco sem aviso, os corpos se colando num embate tão violento quanto inevitável. Roupas foram pro chão, móveis rangeram. Era um ato de sobrevivência mais do que de prazer. Um gesto mecânico. Clara precisava do abismo e Helena adorava empurrar.  

 

O calor se misturou a gemidos abafados, dentes na pele, mãos que exigiam mais do que davam. Não havia amor. Nem sequer tesão, era fome. Um jeito sujo de se aliviar orgasmo venho seco 

Clara se contorceu em baixo de helena O peito arfando, os olhos arregalados.

 

— O que foi agora? — Helena perguntou, já entediada com qualquer crise existencial que pudesse estar por vir.

 

Clara ficou ali, suada, destruída, mas com uma pontada de lucidez cortando tudo. Então soltou, com a voz arranhada:

 

— Eu nunca fui boa em cálculo

 

— É mesmo?

 

— Eu finjo. O tempo todo na faculdade, na vida. Eu minto , apenas acredito que tenho controle

 

Helena riu. Baixo. O tipo de riso de quem já esperava a confissão. Ela passou a língua nos lábios, como quem saboreia a ruína alheia.

 

Clara respirou fundo. Helena puxou-a para baixo novamente, sem piedade, sem promessas. Não havia redenção, não havia romance.

 

Só calor. suor. Instinto cinismo

 

E um ventilador como um bêbado arrependido, empurrando o calo

r de um lado pro outro, inútil, como sempre