Versos Discretos

SacrifĂ­cio

Deponho-te nua sobre o ara da paixão, 
Teus seios tombam, em êxtase, aos lados; 
Contemplo-a por um breve instante, 
Enquanto o rubro filete escorre pelo teu corpo. 
Beijo-te como se fosse o último oblato.

Meu desejo atinge o âmago deste transe, 
Absorto em teu odor, prossigo como em sonho, 
Beijando-a e esquecendo os hierofantes à nossa volta, 
Possuindo teu corpo em sua totalidade.

A língua serpeia, qual Uroboros do Éden proibido, 
Revelando o arcano do prazer e o jugo nascido deste caminho. 
Na movimentação ondulatória do corpo domador, 
Compassado, profundo, penetro-te enquanto arqueias as costas, 
Exalando um profundo gemido. Torno-me parte de ti, num êxtase deífico.

Teus gemidos fundem-se ao canto dos oficiantes; 
Profana liturgia, antífona para a plebe. 
Um turbilhão de imagens torna tudo ao meu redor estranho, 
Meus olhos vítreos não ofuscam a visão anímica, 
E os sentidos inebriados por néctares de flores 

E sensações lancinantes de carícias, ferem.
E quando escuto, pasmo, sorveres o sangue aos lábios, 
Deliciosamente, a sofreguidão coberta pela névoa 
Dos cabelos negros dilacera minhas veias, 
E abrem-se as asas da Morte! 

Os corvos vociferam o presságio! 
A Natureza transforma-se em paisagem acinzentada de subterrâneos mundos,
Empalideço, esmoreço com o rosto descansado em teus seios fartos, 
Adormecendo enquanto filetes carmesins ainda escorrem dos lábios na face branca
E lívida de cria angelical, abraçando-me como uma deusa possuída.