Caso amanhã eu não esteja aqui…
quero deixar em você não a lembrança da falta,
mas o mapa secreto de tudo que já senti.
E não num tom melancólico
mas na luz suave que fica depois do pôr do sol,
quando o céu entende que só é bonito
porque a noite vem.
A vida virou outra coisa perto de você.
Virou brisa onde antes era deserto,
virou canto onde só havia eco,
virou cor onde tudo era cinza.
E é estranho admitir,
mas talvez nenhum poema consiga caber
no espaço exato do que vivi ao seu lado.
Palavras são pequenas,
e nós éramos imensos.
Mil poemas ainda seriam insuficientes,
porque sentir você era como tentar escrever o oceano
com uma caneta sem tinta:
o mar existe,
me atravessa,
me inunda,
mas a folha insiste em ficar branca.
ah, o tempo.
Ele não passou; ele correu, tropeçou,
se espalhou como um rio que perdeu o leito
e decidiu inundar tudo.
Tivemos tardes que cantavam sozinhas
e manhãs que dançavam antes mesmo do sol acordar.
Cada gesto seu era uma delicadeza escondida,
a cada instante um pequeno milagre cotidiano.
E, no fim das contas,
a única coisa que sempre importou
foi estar! somente estar,
estar inteiro, estar presente, estar vivo
no instante exato em que você também estava.
A vida é curta demais pra caber em caixas.
Curta demais pra ser dobrada, silenciada, adiada.
Curta demais pra não ser vida
em cada segundo que pulsa,
em cada risco que se assume,
em cada verdade que se diz.
E quando a gente finalmente entende
a força da liberdade,
descobre que viver não é sobreviver,
não é preencher o calendário,
não é respirar no automático.
Viver é acender o próprio nome no escuro.
É escolher, todos os dias, ser chama
e não cinza.
Se um dia eu não estiver aqui,
que fique ao menos esse pedido
Viva.
Viva com a coragem que eu nunca tive,
com a intensidade que tentei esconder,
com a liberdade que só descobri olhando pra você.
Porque a essência da vida nunca esteve em mim
e talvez por isso
eu tenha passado tanto tempo apenas existindo,
nunca vivendo de verdade.