giovana vicente

pertencimento indelével com aroma de candura

No sonho, ela surgiu

numa figura levemente senescenta,

revestida daquela ternura ancestral

que não se dissipa nem diante do irreversível.

Trazia os cabelos curtos,

um mosaico de felpo grisalho,

uma tessitura quase têxtil,

como se cada filamento guardasse

reminiscências de um afeto primevo.

Quando foi abraçada, o gesto

irrompeu como uma epifania suave:

o calor epidérmico,

o aroma etéreo da candura materna,

a sensação de um pertencimento indelével

que só existe quando o amor é absoluto.

E naquela aparição onírica,

sua presença, mesmo translúcida e rarefeita,

ainda pulsava com a mesma força primordial

de quando caminhava ao lado de quem a amava.

 

Depois que ela acordou, sentiu

o porquê daquela visita.