Thomas Vasconcellos Ivanov

Já não vivo mais

Há momentos em que não creio mais em nada.

Não porque a vida tenha mudado,

mas porque eu mesmo me desfiz diante dela.

 

A cada dia, algo morre em mim e algo nasce —

não por esperança, mas por insistência.

A existência continua, indiferente,

como se a agonia fosse apenas mais um hábito da matéria.

 

Calo-me.

Não por medo, mas porque aprendi que as palavras, quando ditas,

não se espalham para acolher — se espalham para ferir.

O mundo escuta apenas para julgar.

E o silêncio se torna o último refúgio do que ainda resta de mim.

 

Falo, às vezes, e sou golpeado.

Não com mãos, mas com a frieza de quem nunca tenta entender.

Quando poderiam usar a linguagem para levantar alguém,

preferem usá-la para lembrar que estamos sozinhos.

 

E tudo se resume a isso:

carregamos o peso de existir diante de pessoas

que aprenderam a ver o outro como ruído.

Esperamos empatia, mas encontramos indiferença.

 

Ainda assim, continuo.

Não por fé, nem por consolo —

mas porque, de algum modo estranho,

resistir ao próprio vazio também é viver.