Eu, que tanto quis decifrar o livro do mundo,
esqueci que a primeira página era a minha.
Passei pelos dias como quem passa por espelhos apagados,
desprezando sinais, ignorando alertas,
achando meus olhos pequenos
e minha própria voz sem valor.
Mas o tempo, sábio e silencioso
sussurrou que ninguém encontra o caminho
enquanto foge de si.
Então despertei.
E ao me ver, pela primeira vez,
percebi a desconhecida que eu era,
a estranha que habitava meu peito,
a ausência que eu mesmo me dei.
Agora caminho de volta,
folheando devagar a minha essência,
reconhecendo cada palavra que um dia temi.
E descubro, enfim,
que o livro que sempre busquei
começa no instante
em que deixo de fugir de mim.